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quarta-feira, 13 de outubro de 2010

MANIFESTO - DIA DOS PROFESSORES

O que é preciso para melhorar a qualidade do ensino?

Que a lei seja cumprida!

Nós, professores do Grupo de Sábado (GdS) – um grupo colaborativo de formação que reúne professores que ensinam Matemática, estudantes de Licenciatura e de Pedagogia, além de dois professores efetivos da Faculdade de Educação da Unicamp, do Departamento de Ensino e Práticas Culturais – viemos a público manifestar nossa indignação e expressar o descontentamento dos professores com a (des)valorização da profissão docente e com as atuais políticas públicas de educação, especialmente do Estado de São Paulo, e apontar as principais reivindicações do grupo e dos mais de 410 professores que ensinam Matemática que estiveram presentes ao último evento organizado pelo grupo, em Julho de 2010 (III SHIAM - Seminário de Histórias e Investigações de/em Aulas de Matemática).

Iniciamos trazendo algumas vozes desses professores:

A mesa de abertura do III SHIAM destacou problemas que nós professores estamos vivenciando e aceitando, ainda que a contra gosto, sem reivindicar. [...] Sinto que a mídia abafa nossa voz e transmite para a sociedade falsas verdades[...] (D. L.)

Divulgar nas escolas que existe a possibilidade do professor ser ouvido e reconhecido também como produtor de conhecimento (e este como parte de sua formação). Essa possibilidade é a participação e formação de grupos de estudo colaborativo. (A. B.)

Decidimos escrever um texto que abordasse nossas indignações e reivindicações, principalmente em relação a nossa formação continuada e a forma como esta tem sido tratada pelas políticas públicas estaduais, que preferem utilizar como critério a meritocracia injusta, cujos resultados tem sido desastrosos, em vez de uma valorização real do professor.

Embora esta também seja uma questão que precisa ser discutida, não temos a intenção, neste manifesto, de pedir aumento de salário, o que obviamente é necessário, tendo em vista que os professores atualmente ganham 40% menos que outros profissionais com a mesma qualificação, conforme aponta o artigo publicado no site da ANDIFES:

Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2008, enquanto a renda mensal média na ocupação principal dos trabalhadores com nível superior completo era de aproximadamente R$ 3 mil, a renda média dos professores que têm formação superior e atuam nas redes estaduais ou municipais de educação básica (nas quais está a grande maioria dos estudantes e professores) variava na faixa de R$ 1 mil a R$ 1.600, dependendo do vínculo administrativo (municipal ou estadual) e do nível em que ensinam. Esses valores estão mais próximos da renda dos trabalhadores com ensino médio, cerca de R$ 1 mil mensais. Tal diferença salarial entre professores com formação superior e os demais trabalhadores também com mesmo nível educacional existe, com raríssimas exceções, em todos os municípios e Estados, inclusive no Estado de São Paulo.

Consideramos que a escola tem mudado, mas observamos que as políticas públicas não acompanham efetivamente as transformações pelas quais passa nossa sociedade, e responsabilizam os professores pela crise da educação em nosso país. Por isso, alguns planos de carreira são atrelados ao desempenho de nossos alunos em avaliações controladas pelos governos das diferentes esferas: municipal, estadual e federal. Também somos avaliados em provas com critérios muitas vezes dissociados de nosso contexto prático. Será que a seleção cuidadosa que realizamos de diferentes atividades para serem desenvolvidas em nossas aulas são menos importantes que as perguntas conteudistas e fechadas presentes nessas provas meriotocráticas de múltipla escolha?

Qual o discurso mais difundido na atualidade a respeito do ensino de matemática no Brasil? E no Estado de São Paulo? Em sua maioria, são discursos que reforçam a formação deficitária dos professores de matemática, ou ainda, a falência do sistema educacional brasileiro.

Segundo pesquisa da Fundação Vitor Civita em parceria com a Fundação Carlos Chagas(FCC), a carreira docente atrai cada vez menos os jovens que se formam no Ensino Médio e ingressam no Ensino Superior. Nos últimos anos, tem sido divulgada a queda na demanda pelas licenciaturas e no número de formandos. Apenas 2% dos jovens que cursam o 3º ano do Ensino Médio pretendem alguma licenciatura.

Esta situação precisa ser combatida com várias ações e uma delas é o aumento de salário. Mas, esta ação não basta para reverter a falta de atratividade da carreira de professor. Defendemos a necessidade de se reconhecer que a formação contínua é um direito do professor e deve ser considerada como parte inerente de sua profissão.

A educação pública, especialmente do Estado de São Paulo onde atuamos, necessita ser repensada a fim de garantir a qualidade do ensino oferecido aos nossos alunos, por este motivo, sabemos da importância de uma formação não apenas continuada mas sim, continua, no sentido de uma formação ininterrupta, ao contrário daquela que tem sido oferecida aos professores, em cursos temporários e sem continuidade. Outro complicador é que estes cursos geralmente são ministrados sem relação direta com a prática do professor.

Ser professor é envolver-se com uma profissão técnica, científica e cultural, optar por uma profissão que exige uma reflexão constante sobre a própria prática. É essencialmente a profissão de quem ensina e aprende continuamente. Nesse sentido, a atualização docente não pode ser realizada de tempos em tempos, mediante cursos oferecidos esporadicamente.

Tendo em vista a necessidade de assegurar um piso salarial a toda a categoria e valorizar o magistério, promovendo assim uma melhoria na qualidade da educação, em julho de 2008 foi aprovada no Brasil a Lei nº 11.738, conhecida como Lei Cristovam Buarque. Em seu § 4º do artigo 2º, a Lei Cristovam Buarque trata da composição da jornada de trabalho do professor. Neste artigo fica garantido que a jornada de trabalho do professor será composta de 66,6% de trabalho com alunos, ficando o restante de horas reservado para outras atividades que poderão realmente promover uma formação contínua do professor.

Em vez de cumprir a lei, oferecendo aos seus professores uma jornada de trabalho que permita seu desenvolvimento profissional, a solução encontrada pela Secretaria de Estado da Educação de São Paulo (Seesp) tem sido a oferta de cursos de especialização, aprimoramento ou extensão.

Estes cursos não tomam como referência os desafios postos ao professor de matemática na escola atual, não acompanham de perto a implementação de alternativas metodológicas e o desenvolvimento curricular nas unidades escolares. Ao contrário, reforçam um único aspecto da formação, propondo-se a “ensinar mais matemática aos professores”.

O professor inserido neste programa, é visto como um profissional que não correspondeu às expectativas do Estado dentro de sua sala de aula e por este motivo, necessita de um “reforço”. Este profissional que já era desvalorizado socialmente sente-se cada vez mais desmotivado e realiza esses cursos em horário oposto ao de sua jornada de trabalho o que não oferecerá o suficiente para o aprimoramento de sua prática, pois este modelo de formação, denominada como formação continuada, em algum momento se interrompe.

Sabendo da estressante jornada de trabalho dos professores, que chegam a assumir dois cargos no estado para garantir um salário razoável, como ele poderá ter tempo de estudar, se aprimorar e refletir sobre a prática em alguns meses?

Quais são as conseqüências dessa formação ao professor e qual a repercussão disso em suas aulas? Elas se tornam mais interessantes, motivadoras e ricas em conteúdos CORRETOS de matemática? Parece que esse sistema não tem sustentação para a atual situação com a qual nós nos deparamos, não provocando mudanças na qualidade da Educação.

O que propor então?

Propomos apenas que a lei seja cumprida, nada mais!

Se existe uma lei que nos garante o direito de utilizarmos 1/3 de nossa jornada de trabalho para estudo, por que não indagar os motivos pelos quais essa lei não é cumprida em nosso Estado?

Não estamos nos negando a estudar, a participar de cursos de formação, mas almejamos uma formação contínua, que nos ajude a alcançar os níveis de qualidade exigidos pela atual sociedade e queremos condições dignas para isso, ou seja, queremos que essa formação contínua faça parte da nossa jornada de trabalho, se tornando parte do processo de formação educativa constante do professor, sem interrupções.

Uma possibilidade é a criação de grupos colaborativos que embasam sua filosofia numa perspectiva de estudos em colaboração com os seus pares. Nos grupos, os estudos são diretamente voltados para as práticas em sala de aula permitindo não apenas a relação entre teoria e prática, mas também os momentos para a reflexão dessas relações.

Acreditamos, por nossa própria experiência, na parceria entre professores escolares, futuros professores e acadêmicos em comunidades colaborativas, reflexivas e investigativas. O caráter diversificado dessas comunidades tem um papel importante à medida que torna possível a ressignificação das experiências de maneira crítica e criativa, valorizando o conhecimento do estudante, dos acadêmicos, mas também o conhecimento e os saberes docentes dos professores que atuam em sala de aula. Assim, poderemos constituir uma postura investigativa necessária ao mundo contemporâneo que muda a cada instante, e os acadêmicos poderão cumprir seu papel de disseminadores do conhecimento obtido em pesquisas, ao mesmo tempo em que poderão associar estas pesquisas com a realidade da sala de aula.

Um exemplo desses grupos colaborativos, e que tem apresentado ótimos resultados é o próprio GdS, com seu modelo organizacional: um grupo de professores que ensinam matemática (na Educação Básica e no Ensino superior) que se reúne para discutir a prática de sala de aula. Esta forma de trabalho tem ajudado muitos professores a desenvolverem-se profissionalmente, incentivando a produção escrita por meio de quatro livros já publicados, a organização de seminários bienais (Seminário de Histórias e Investigações de/em Aulas de Matemáticas I, II e III), realizados em 2006, 2008 e 2010 e a participação de seus integrantes em outros congressos e encontros, não apenas como ouvintes, mas como convidados em mesas redondas, apresentando trabalhos e oferecendo oficinas. Esta participação demonstra o prestígio profissional destes professores, seu reconhecimento acadêmico e sua importância para o desenvolvimento da Educação Matemática como campo de prática profissional e de produção de conhecimento.

O Grupo de Sábado, ao longo de seus 11 anos de existência, tem promovido diretamente o desenvolvimento profissional de mais de uma centena de professores ou futuros professores que dele participaram por um período de pelo menos um semestre. Várias pesquisas – dentre elas duas teses de doutorado – têm mostrado que os professores que participaram das reuniões de estudo e pesquisa do GdS, tendo como objeto de análise a prática de ensinar e aprender matemática em diferentes níveis de ensino e realidades escolares, mudaram radicalmente sua prática e ajudaram a promover melhoria da qualidade do ensino de sua escola. Vários outros grupos semelhantes surgiram no estado de São Paulo e no Brasil, sendo igualmente contributivos à formação contínua de seus participantes.

Essa história nos traz a convicção de que é possível implementar, nas diversas secretarias de educação, projetos de formação continua em forma de grupos colaborativos, cujos programas de estudo e pesquisa sejam organizados e coordenados por professores, tendo como apoio as Diretorias de Ensino e parceria as IES que oferecem regularmente cursos de formação de professores. Essa alternativa de desenvolvimento profissional e cultural dos professores tem-se mostrado - como evidenciam as pesquisas realizadas pelos grupos de pesquisa Prapem (Prática Pedagógica em Matemática) e GEPFPM (Grupo de Estudo, Pesquisa e Formação de Professores de Matemática) da Unicamp - mais efetivas que os tradicionais cursos de formação continuada de professores. Nesse sentido, solicitamos que as Secretarias de Educação não apenas permitam que o professor possa optar por essa modalidade de formação continuada como também a reconheça, apóie e subsidie com recursos públicos.

Grupo de Sábado – FE/Unicamp

www.grupodesabado.blogspot.com

Outubro/2010

domingo, 29 de novembro de 2009

Encontro 07/11/2009

No encontro do dia 07/11/2009, o subgrupo Arte&Matemática apresentou as atividades que estão sendo desenvolvidas. Solange e Geórgea apresentaram o trabalho de formação que desenvolvem com as professoras das escolas que atuam. Destacaram a importância do trabalho de formação que a Keli (GdS) desenvolveu e que participaram com narrativas.
Em seguida, Izaura apresentou as atividades que desenvolveu com seus alunos. Envolvendo formas geométricas, obras de Tarsila do Amaral e atividades do livro didático.
Em seguida, foi a vez da Milda apresentar suas atividades envolvendo a construção de representação de sólidos geométricos com a transposição de obras de Escher.
Após o intervalo apresentei meu trabalho de conclusão de curso (TCC) acerca da constituição da profissionalidade docente mediante às políticas públicas.
Neste encontro, também comemoramos o aniversário da profa. Dione com bolo e flores!!!

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Livros Inapropriados

Por acaso vocês leram a matéria da Folha de São Paulo ou no site do G1 falando a respeito dos livros inapropriados que foram entregues para os alunos de escolas públicas do estado de são paulo?
Alunos que estão em fase de ALFABETIZAÇÃO!!!
Quem não leu, leia: http://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo/0,,MRP1159630-5605,00.html
Quando eles erram não passa de um equívoco! Mas quando podem de alguma forma escapar da culpa e joga-la em cima de nós... Aí eles fazem isso com todo o alarde possível. Já não bastasse os erros que ocorreram nas apostilas de Geografia com a inclusão de DOIS PARAGUAIS. Agora temos que usar livros com palavrões para ALFABETIZAR crianças?
Onde vai parar e quando vai acabar esse domínio inescrupuloso do PSDB no estado de são paulo? Quando as escolas estiverem todas fechadas, todos os docentes com problemas de saúde graves, morte nas escolas, quando??? ATÉ QUANDO???
Pode não parecer, mas as políticas do estado influenciam e muito o andamento das escolas particulares que parecem estar correndo nos mesmos trilhos da escola pública...
Acho que não existe mais greve, paralisação que possa chamar a atenção da população. Tem que existir outra forma de chocar as pessoas para tamanha falta de competência administrativa da secretaria de educação do estado de são paulo.
Estou indignado e não me conformo em me manter calado perante tantos erros!
Davi.

sábado, 15 de março de 2008

E os professores... o que pensam de sua secretária?

GdS – Grupo de Sábado[1] – Escrito fevereiro-março de 2008

www.grupodesabado.blogspot.com

Já nos acostumamos, isso não quer dizer que concordamos, a receber notícias da Secretaria de Estado da Educação de São Paulo (SEESP) quando tudo já foi resolvido sem nos consultar. Mais uma vez decidiram os rumos para “melhorar a qualidade da educação” sem ouvir os que realmente tem a responsabilidade de pô-la em prática.

Mesmo assim, não deixamos de trabalhar, de lutar por uma educação melhor, de acreditar que se pode avançar. E assim seguimos em frente, trabalhando com classes superlotadas de alunos, com um salário que nos obriga a triplicar a jornada de trabalho e tudo o mais.

Mas já passou da hora de começarmos a “colocar a boca no trombone”, pois agora estamos começando a pensar colaborativamente, em grupos, oficiais ou extra oficiais, espalhados pelo estado, parece-nos um bom momento para começar... Mas será que seremos ouvidos? Será que a SEESP está interessada em conhecer nossas propostas de melhoria do ensino? Ou, mais uma vez, prefere contratar especialistas que nos digam o que e como devemos agir em sala aula?

A edição 2047 da revista Veja, de fevereiro 2008, publicou uma reportagem da nossa atual secretária de educação na qual ela concede uma entrevista para esclarecer a nova estratégia para melhorar a qualidade da educação, a qual prevê a distribuição de um bônus a todos os funcionários das escolas, de acordo com os resultados obtidos em avaliações de rendimento a serem aplicadas pela SEESP.

Olha... com o salário que ganhamos, um bônus é sempre bom! É com ele que conseguimos comprar livros e realizar alguns míseros sonhos... Mas muitas questões precisam ser esclarecidas...

Quando a secretária afirma, em sua entrevista, ter criado um indicador para aferir a situação atual de cada escola e, com base nele, estabelecer metas concretas, concordamos que há necessidade dessa medida e que é muito pertinente que as metas estejam de acordo com as condições de cada escola. Entretanto, discordamos quando afirma que “o desempenho dos alunos em provas aplicadas pela própria secretaria terá o maior peso” por ser este “um excelente medidor do sucesso acadêmico de uma escola”. Entendemos que se faz necessário realizar também uma análise qualitativa e diferenciada, considerando a realidade de cada escola. Além disso, os professores e gestores escolares também precisam ser ouvidos e envolvidos neste processo.

Mas este não é o maior problema. O que nos deixa mais indignados é a decisão de que “só as escolas que conseguirem melhorar nas estatísticas vão receber mais dinheiro”. Mais uma vez, como toda proposta apresentada pelo Estado, essa esbarra na questão da avaliação, neste caso, não só do aluno, mas do professor, considerado pela secretária como “professor ruim, desinteressado ou que mal aparece na escola”.

Fazendo uma analogia com a medicina, não é para os doentes que devemos dar remédio? Porque então premiar as boas escolas e não mandar verba para aquelas que não atingirem as metas? Não serão exatamente estas as que necessitam de maior investimento? Não serão seus alunos os mais prejudicados, caso esse investimento não chegue a eles? Afinal, o que terá sido medido será o seu desempenho, o qual não terá atingido as metas propostas pela secretaria de educação!!!

Querendo “des-culpar” o Estado de São Paulo pelo fracasso do ensino público paulista, que se prolonga há anos, a secretária insinua que os principais responsável pela situação são “os próprios professores, muitos dos quais incapacitados para dar uma boa aula” e destaca ainda que “a falta de professores preparados para desempenhar a função é, afinal, um mal crônico do sistema educacional brasileiro”. A secretária esquece que quem é responsável pela seleção criteriosa de professores, pela sua permanência na carreira em condições dignas de trabalho e salário, e pelo desenvolvimento profissional dos mesmos... é o próprio Estado com suas políticas públicas.

São muitos pontos a serem discutidos antes de criticar os professores e dizer que vai premiar apenas os “bons”. E o que a senhora Maria Helena pretende fazer com os professores que forem classificados como pertencentes a “zona de mediocridade”? Manter o mesmo tipo de formação continuada que até agora nenhum resultado positivo obteve?

E a responsabilidade do Estado não termina por ai. Ouvimos dizer que foi dada demasiada autonomia às escolas e isso tem gerado a atual situação da escola pública. A secretária aqui parece confundir autonomia com abandono do Estado com relação aos seus compromissos com o bem estar e o bom funcionamento das escolas, de modo que estas possam, de fato, cumprir sua função social de educar as crianças e os jovens.

Da forma como tem sido exposto pela secretária, parece que o excesso de professores “incapacitados” não tem nada a ver com a política de gerenciamento da rede, que joga professores recém-formados para iniciar sozinhos seu trabalho, sem apoio, sendo-lhes geralmente atribuídas as classes mais problemáticas da escola; que investe apenas numa formação continuada “encaixotada” e contrata mais gente para fiscalizar e policiar os sujeitos da escola do que para construir com os professores uma proposta que atenda às suas necessidades e a de seus alunos; que não reconhece os esforços de professores que buscam outro tipo de formação, produzindo e participando de congressos e seminários, mesmo não sendo liberados para tal; que não incentiva esse professor a produzir material próprio e a promover a renovação curricular a partir da escola.

A entrevista da Secretária de Educação de SP parece ter agradado muito a mídia. O artigo de Dimenstein, na Folha , também é concordante e acha que a solução importada dos EUA e Inglaterra pode ser a panacéia para salvar a escola pública paulista... A proposta de premiação das escolas, cujos alunos apresentarem bom rendimento nas avaliações como o SARESP, não passa de um paliativo e assemelha-se àquela história do camponês que, para fazer seu burro teimoso a andar, colocava uma espiga de milho à sua frente. Mas o pobre burro, por mais depressa que andasse, somente receberia seu prêmio quando chegasse ao lugar que seu dono queria. Ou seja, essa premiação - que pode representar até 25% de aumento do salário do professor - não passa de uma motivação extrínseca cujos efeitos serão provisórios e efêmeros. Funcionarão por um tempo, correspondente à gestão de um governo, atendendo, assim, a uma política de resultados, como lembra Saviani.

É fato que as primeiras pesquisas sobre esse sistema de premiação, nos EUA e Inglaterra, mostram que os efeitos são positivos. Mas a Secretária ignora - ou omite propositadamente – o que verificaram outras pesquisas de natureza qualitativa abrangendo um período de tempo superior a dois anos. Essas pesquisas mostram que efeitos provocados por motivações extrínsecas como as que foram adotadas, tendem, a longo prazo, a decrescer ou estabilizar-se.

Muitos professores não se sujeitarão a correr atrás da espiga de milho. O que acontecerá com eles? Serão expulsos da escola por aqueles que decidem participar da corrida ao milho?

Diante do parco salário que recebemos, o bônus é sempre bem vindo. Mas o problema é que, sendo esta uma motivação extrínseca, a opção de como caminhar - e em que direção - não será uma opção construída pelo coletivo dos professores ou pelas próprias escolas...

A Secretaria, ao enviar pacotes prontos de aulas ou de roteiros de aulas – vejam, por exemplo, o material enviado pelo projeto "São Paulo Faz Escola", chamado pela própria secretária de recuperação intensiva, o material da "quaresma" como se referem os professores de nosso grupo - apresenta indícios de que esta Secretaria não confia na capacidade intelectual de seus professores e, por isso, homogeneíza e padroniza um tratamento de recuperação comum a todos os alunos do Estado.

Os professores e as escolas também não terão o direito de avaliar seu caminho na implementação das mudanças sugeridas pela SEESP. Como diz a Secretária, os medidores do rendimento escolar serão objetivos, isto significa que serão externos e controlados por técnicos contratados pela SEESP, sem que os professores sejam ouvidos. Isso tornará as relações inter-pessoais nas escolas ainda mais complicadas e será, certamente, um fator a mais para aumentar o estresse e o mal estar docente.

A comunicação da SEESP, com as unidades escolares é precária. Afirmamos isso, pois se dissermos que os professores não foram consultados para a elaboração da Proposta Curricular, a Secretaria terá o argumento de que tudo foi disponibilizado no site "São Paulo Faz Escola" e que os professores é que não aderiram ao Projeto. Mas ela não apontará o fato de que a burocracia trava o trabalho pedagógico e mata a vontade de "colaborar" com a Secretaria. Professores do grupo de sábado tentaram compartilhar experiências de sala de aula, mas, tudo se perdeu a partir da burocracia encontrada na Direção Escolar. Que professor da rede estadual sabia dessa consulta?? Discutimos isso no nosso grupo de estudo, pois tentamos buscar. Entretanto, a grande maioria de nossos colegas sequer soube da abertura do espaço no site. Isso não chega às escolas, não é pauta de reuniões e discussões das escolas com as Diretorias Regionais de Ensino, assim como não tem sido também divulgadas essas entrevistas e as recentes decisões da secretaria. Esse artigo é uma tentativa do grupo em levar essa discussão para dentro das escolas.

Não fazemos críticas apenas para apontar os erros. Devido à experiência acumulada, após quase dez anos de grupo de estudo e pesquisa, temos propostas e queremos compartilhá-las e discuti-las com os demais professores.

Acreditamos que a SEESP poderia lançar mão de uma motivação intrínseca, a qual consiste em convocar as escolas e professores para que eles próprios elaborem e apresentem projetos de melhoria do ensino na escola... As universidades poderiam colaborar neste processo, mobilizando formadores de professores e futuros professores num trabalho de parceria.

A avaliação dos resultados disso pode ser muito mais ampla do que aquela que está sendo proposta... As escolas que tiverem seus projetos aceitos receberiam a ajuda financeira ao longo do ano de implementação. Ao concluir o primeiro ano, duas avaliações seriam então realizadas: uma interna – desenvolvida pelos próprios docentes e gestores da escola – e outra externa, sob responsabilidade da SEESP (SARESP, por exemplo). E, no caso da avaliação ser positiva, seu projeto seria novamente contemplado com mais um ano de financiamento do projeto de melhoria concebido pela escola. Os efeitos resultantes dessa modalidade de trabalho coletivo e colaborativo na escola, como mostram Hargreaves e estudos recentes realizados pelos Grupos GEPEC, PRAPEM e GdS da Unicamp, são mais consistentes e duradouros, pois promovem mudanças tanto em relação à melhoria do ensino quanto da cultura escolar e do desenvolvimento profissional dos professores. Os professores, nesta alternativa, deixam de ser meros objetos das mudanças pretendidas por agentes externos e passam a ser os próprios sujeitos ou protagonistas da transformação da escola e da melhoria da aprendizagem dos alunos.

Mas a SEESP certamente não concordará com esta proposta, pois esta estaria na contra-mão das políticas neo-liberais que defendem a minimização de custos, a padronização de conhecimentos e competências e o não-comprometimento do governo com a formação inicial e continuada de professores, objetivando uma sólida formação teórica e autonomia profissional. Por isso o desejo da Secretária em fechar cursos de Pedagogia como o da Unicamp e da USP.

Mudam os secretários, mas não muda a forma de pensar. Todos acreditam que podem fazer isso sozinhos, ou com seus especialistas de gabinete!!!

Mais uma vez nos sentimos injustiçados e desmotivados em relação à questão salarial. Sabemos que é um prazo curto para taparmos "buraco" formado com a ajuda de políticas educacionais estabelecidas pelo mesmo sistema que somente agora, em ano eleitoral, parece estar preocupado com a melhoria do ensino.

Precisamos estabelecer um caminho de comunicação "real" para que nossa opinião, nosso trabalho e nossa realidade sejam conhecidos e re-conhecidos. Que tal a Sra. Secretária passar uma manhã conosco, em uma das escolas estaduais de periferia de nossas cidades. Certamente ela encontraria melhores soluções educacionais voltadas a nossa realidade do que importando modelos de outros paises.



[1] "O GdS é um Subgrupo do PRAPEM-CEMPEM (Prática Pedagógica em Matemática - Círculo de Estudo Memória e Pesquisa em Educação Matemática) da FE/unicamp que se reúne quinzenalmente, aos sábados pela manhã, das 9h às 12h, para estudar, compartilhar, discutir, investigar e escrever sobre a prática pedagógica em matemática nas escolas em um ambiente de trabalho colaborativo que congrega professores de Matemática do Ensino Fundamental e Médio e docentes da Área de Educação Matemática da FE/Unicamp."